Letras que dançam na sua frente

14/Abr/2020

Letras que dançam na sua frente

Acordei de manhã e vim logo para o computador para me informar sobre como todo este caos desta gripe fatal está prejudicando nossa vida.

Logo senti um cheiro curioso que me lembrava algo, mas não estava me recordando de onde. Pensando mais um pouco, me veio um flashback de estar brincando na piscina com amigos muito tempo atrás, o que me fez ligar os pontos. É um cheiro um pouco ardido, mas que traz sentimentos agradáveis.

E não é que a minha esposa estava passando um produto de limpeza no piso aqui perto da minha mesa? Como é que ela consegue trazer o cloro da limpeza e alterar o que penso?

Não deu outra, tive que brincar com ela que o produto de limpeza me trouxe boas lembranças...

Mas o assunto aqui é outro, queria discutir com vocês como é que a palavra escrita consegue impactar as pessoas e até mudar as interpretações sobre as suas realidades.

Queria saber de vocês, então, se a minha narrativa trouxe sentimentos equivalentes ao que senti quando escrevi este pequeno texto.

Primeiro apresentei a ansiedade provocada pela mídia, tentando colocar vocês num quadro equivalente, buscando que vocês se espelhassem e se identificassem com o meu sentimento.

Depois, trabalhei o sentido do olfato, numa busca de fazer vocês praticamente sentir o cheiro do cloro de dentro de suas cabeças.

Termino, então, num pequeno sentimento de saudade de um tempo que não volta, uma nostalgia de paz e de brincadeiras.

Logicamente a cabeça de vocês pode estar ocupada demais, não deixando que o processo de narrativa os prenda a atenção e os exercitem nos processos de imaginação provocados. Muita gente tem pouco tempo para aceitar ser "encantados" por pessoas aleatórias na Internet.

Mas como disse a laranja para a maçã: o que tem a banana feito? O feirante entretanto estava doente e não foi. Mesmo assim, este feirante disse se você não exercitar escrevendo narrativas você não vai aprender a impactar as pessoas. Escute o feirante, comece já!

E agora? O que eu fiz aqui?

É papo de louco?

É um exercício de confusão para abrir espaço para te desarmar com uma verdade direta. Quase uma sugestão hipnótica sobre se movimentar para escrever agora!

Narrativas estressam a capacidade de vocês, que estão lendo, através da construção de personagens e contextos, dando espaço para que o ego esteja mais fraco e não exerça o senso crítico dos preconceitos enraizados na sua cabeça.

Ficou mais material você desenvolver a vontade de escrever alguma coisa? Ou seu ego teve força para contar a mentira que você nunca seria capaz?

Mas tem outra coisa que gostaria de contar para vocês. Eu queria hoje trabalhar um story no Instagram falando da minha dificuldade de construir narrativas, só que a minha sensação é que não tenho nada para dizer.

Por mais que eu me force a me organizar para isso, eu não chego nem a abrir a aba de stories para não sentir a decepção da desistência. Uma desistência de não começar provoca menos ansiedade que uma desistência no meio do ato.

O medo então é o impedimento, e a coragem é a solução.

Uma fábula antiga fala de um camundongo que vivia angustiado por causa de um gato.

Apareceu então um mágico que, observando a situação do camundongo, o transformou em um gato.

Só que agora o gato passou a sentir medo do cachorro, fazendo o mágico agir novamente o transformando em um cachorro.

Mais uma vez o mágico sentiu pena, e, então, pensou em transformar ele numa pantera para nunca mais sentir medo.

Não é, então, que agora ele ficou apavorado com os caçadores?

O mágico, então, o transformou novamente em um rato e falou: nada que eu faça vai fazer você perder seu medo, e que a única maneira de resolver isso é desenvolver a capacidade de avançar apesar do medo. E isso é a coragem.

E agora? Será que uma metáfora te impactou?

Uma narrativa, num contexto desconexo da sua vida, por base de uma metáfora consegue construir a virtude da coragem para transformar a visão limitada dos medos imposta pelo ego?

Não é impressionante como conseguimos ajudar as pessoas através da comunicação? E como é poderoso o uso da arte da "dança" das palavras para a construção de pessoas e de uma sociedade melhor?

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari