A Internet nos salvará de nós mesmos

26/Jan/2021

A Internet nos salvará de nós mesmos

O nosso modelo mental desde o Iluminismo tem caminhado para um conceito industrial de manipulação do mundo. Como se a natureza entregasse materiais crus e inertes prontos para que possamos escolher, manipular, transformar e criar algo de valor para a sociedade.

Hoje em dia isso está tão enraizado no nosso modo de pensar que parece um martelo que tenta pregar qualquer parafuso que vê pela frente.

Só tem um problema, passamos a considerar a natureza um obstáculo para os nossos objetivos, e ficamos ansiosos para alterar tudo o que encontramos na vida para construir uma idealização do nosso futuro.

Isso fez a gente criar produtos que não precisamos só para ter status e criar ideologias que só buscam atender idealizações sobre o que nós somos. Queremos manipular o mundo não mais para atender os nossos objetivos de sobrevivência e de realização, manipulamos o mundo para fabricar distopias sobre como deveríamos ser.

Não é à toa que estamos numa corrida desenfreada para destruir tudo o que é natural e humano e estamos criando um modo de vida que seria perfeito apenas para robôs que vemos nos filmes de ficção científica.

Fica nos parecendo que é antiquado e piegas tudo o que é considerado social ou real entre as pessoas. Ensinamentos antigos de filósofos gregos, práticas consolidadas de comunidades religiosas, ou ainda conhecimentos milenares de religiões orientais ficam todos colocados em escaninhos da história, como se não tivessem mais conexão com o mundo que vemos hoje.

A mídia agora nos cria um senso de urgência, uma necessidade constante de troca de políticos e políticas públicas que parecem querer construir o céu na terra, entretanto sem nenhum ser vivo real, pois eles não caberiam na narrativa. Só sobreviveriam santos que não falham e que seguem uma cartilha impossível de vida, gente de contos de fadas.

Por que não queremos ser mais humanos? Por que estamos desistindo de entender nossas limitações como seres pensantes imperfeitos? Por que abandonamos o aprendizado de equilibrar nosso poder como agentes com a realidade da natureza aceitando nossa existência limitada pelo real?

Estóicos já ensinaram no passado como "viver uma vida boa". Judeus e cristãos nos ensinaram como viver uma vida com princípios e generosidade. Budistas nos ensinaram que temos mais em comum com animal, uma pedra ou um rio do que imaginamos, e o Tao nos ensina que a vida é um fluxo natural e que não devemos ficar intervindo.

Como é que podemos aprender a enfrentar a natureza e lidar com a nossa capacidade de agência se não estamos aprendendo com o nosso passado?

Fabricamos uma sociedade que incute um senso desproporcional de responsabilidades artificiais sem propósitos para a sobrevivência, só voltado para a entrega de valor em troca de dinheiro como se isso representasse nosso sentido de vida. E exatamente por isso que observamos essa quantidade enorme de pessoas desnorteadas e deprimidas, distantes da vida como ela é simplesmente pela força das manipulações mentais da sociedade moderna.

Estamos doentes mentalmente, e os vetores da doença somos nós mesmos.

Mas também estamos vendo agora uma onda contrária surgindo pela Internet, algo que está criando um novo modo de vida para muita gente.

Conseguimos ver a Internet reverberando muito desses conhecimentos antigos e salvando gente que estava desesperada para encontrar sentido em tudo. Influenciadores digitais estóicos como Ryan Holiday, escritores trazendo princípios para a vida como Jordan Peterson, showman vendendo gratidão e empatia como o Gary Vee... Estamos vendo um mar de gente que estão atacando pelas bordas e transformando nosso modelo mental aos poucos.

De certa forma estamos conduzindo a sociedade para uma etapa seguinte ao pós-modernismo, estamos construindo talvez um mundo meta-modernista.

Entretanto esse processo está sendo lento, e o interesse dos jovens a esses temas acabam acontecendo em momentos de extrema turbulência e desespero. Por que não colocamos isso no eixo de crescimento da massa dos jovens?

A escola e a mídia provavelmente são hoje os principais culpados por manter este modelo mental industrial doente até hoje. Como será que quebraremos isso?

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari