A Volta dos Mecenas

08/Ago/2020

A Volta dos Mecenas

Produzir conteúdo dá trabalho, então é legítimo cobrar por isso. Fazer uma produção artística dá trabalho, então é legítimo cobrar por isso.

Estamos com uma mentalidade de produto para as expressões artísticas e não conseguimos pensar qual a razão para produzir algo que não seja em troca de dinheiro.

Nem sempre foi assim. Antes da invenção das tecnologias industriais de cópia e de distribuição, a arte não era assim tão produtizada como um bem de consumo.

Seja nas inscrições rupestres, passando pela contagem de história pelos anciões, quanto pelas performances em praças públicas na antiguidade até a idade média, ninguém contava com uma remuneração certa para a arte.

Naquela época, o sucesso era muito medido pelo envolvimento do público. A performance e o impacto eram chaves para induzir uma doação ou um patrocínio, sendo sempre um resultado direto da relação humana entre o artista e o impactado pela arte.

Com a invenção da rotativa, e depois pelas tecnologias de comunicação de massa, tudo virou produto. A arte não existia mais para impactar as pessoas, passando a ser um meio de comercializar outras coisas ou de se amarrar a algum suporte físico como um livro, um disco ou uma fita para então monetarizar diretamente a arte.

A arte como performance, a arte como transformadora das pessoas sempre continuou a existir, só que a produtização se tornou tão relevante que não conseguimos mais distinguir a arte pela arte.

Essa contracorrente de arte continua coexistindo mesmo nesse ambiente propiciado pela revolução industrial, basta ver as performances teatrais nas praças públicas de nossas cidades, os livros de poesia que são feitos à mão e distribuídos praticamente de graça por poetas idealistas, ou músicos que tocam na rua com uma pequena caixinha de doações.

Será que isso deveria ser a verdadeira arte e não a expressão massificada que vemos em nossas TVs? Será que a Internet não pode estar devolvendo a praça pública para desmassificar o que as mídias destruíram como ideal da arte?

Vimos o MP3 destruindo o sentido do CD e da fita cassete e, ao mesmo tempo, percebemos a produtização da arte se desfazendo. Ter uma música MP3 não é a mesma coisa que o artefato que empilhávamos em nossas salas para a apreciação da arte.

Hoje vemos que o que nos chama mais a atenção é encontrar expressões artísticas de cauda longa no SoundCloud. A música pop virou o instrumento de catarse coletiva, sendo base para a nostalgia e para a rebeldia coletiva, só que estamos encontrando interesses musicais particulares que se associam a nossa individualidade e sentido, e que nos joga em pequenas tribos de interesse.

O jornalismo não é mais o mesmo. Estamos encontrando blogs e influenciadores digitais de notícias que realmente informam a gente com a narrativa que nos mais encanta, que novamente ajudam a formatar o sentido para a nossa vida. A mídia de massa não consegue mais gerar notícias que não sejam apenas para nos atordoar com medos e indignação, nada que realmente ajude nos nossos sentidos. 

Nestas últimas décadas também observamos o surgimento disseminado do código livre. Softwares abertos de qualidade muito boa como o Linux e o OpenOffice que estão disponíveis para qualquer um pegar na Internet. Novamente parece algo estranho pegar algo de graça, mas por alguma razão até o software parece ser uma arte que nos liga com um sentido para a vida.  

E nem preciso entrar no exemplo do Wikipedia, que simplesmente destruiu o modelo até então vigente das enciclopédias...

Mas, então, qual a lógica de oferecer algo de valor de graça? Ficar simplesmente mendigando por doações?

Acredito que a lógica da arte foi totalmente deturpada pela revolução industrial. A arte nunca foi para ser um produto de consumo, a arte serve para a transformação da nossa vida nos elevando através do significado.

Não era para ser um produto de moda, era para ser algo que nos levasse para um lugar no qual não conseguimos ir sozinhos. É a expressão material arquitetada para manipular através dos nossos sentidos para nos elevarmos como humanos. 

No momento que percebemos o valor que a arte nos entrega, fica fácil perceber que pagaríamos qualquer preço para a transformação que nos proporciona.

Precisamos trazer a baila o papel do “Mecenas”... Aquelas pessoas que se orgulham em patrocinar as transformações das mentes das pessoas. 

Em todos os exemplos que listei acima de artes disponíveis na Internet não fazem cobrança explícita de dinheiro ou de doação, mas é trivial observar que eles têm um braço de negócio paralelo ou uma estratégia de patrocínio por trás que envolve apenas uma parte pequena do público da arte gerada.

Esses mecenas são aqueles que compram os serviços de consultoria desses artistas, que compram camisetas e bonés, que assinam grupos fechados de melhores amigos, ou que simplesmente fazem um depósito de qualquer valor em uma conta, e essa estratégia não tem nada de errada.

É simplesmente a maneira que utilizamos por milhares de anos para que a arte acontecesse.

E é essa a tendência que continuaremos a observar pela recriação da praça pública provocada pela Internet: todo empreendimento humano caminhará para um braço de mídia e arte separado do braço de produto, e o produto será o preço pelo qual pagaremos pela arte.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari