Sobrevivendo ao Caos Semântico

14/Out/2020

Sobrevivendo ao Caos Semântico

A Internet mudou tudo! Achávamos que ela iria melhorar a comunicação global, mas parece que tudo está piorando.

Múltiplas bolhas de comunicação estão se formando e estão fabricando até vocabulário próprio, o que leva a brigas e disputas que têm mais relação ao significado das palavras do que as ideias de fato. Estamos na era do "caos semântico".

Antes da mídia de massa, o isolamento geográfico levava a formação de valores, costumes e dialetos próprios para cada região, o que criava uma verdadeira cacofonia de significados e experimentações dos ambientes sociais. O caos parece ruim, entretanto é a base da seleção natural, de forma que abria espaço para que os grupos sociais com maior eficiência no processo de comunicação, de significado, e de valores e virtudes conseguissem crescer e dominar culturalmente regiões.

Viajar, naquela época, se tornava algo que, para a gente, poderia parecer ir para outro planeta, basicamente apenas os mercadores e diplomatas precisavam conviver e conciliar as culturas de cada região.

A mídia de massa, então, aprendeu a dominar regiões com as suas narrativas, conseguindo unificar e conduzir para as unificações dos dialetos e modos de vida. A coisa começou em cada grande cidade, depois para regiões como estados, para países, até chegarmos na era da globalização acelerada da virada do século XXI.

Vimos praticamente o mundo inteiro consumir um filme de Hollywood como StarWars (Guerra das Estrelas) e passamos a conversar globalmente sobre a crueldade do Império e a coragem e ousadia do Luke Skywalker. As narrativas ganharam impacto mundial.

No lado das notícias, grandes agências como a Reuters, a Associated Press e a CNN passaram a também unificar os relatos das informações globais, tornando muito similares as percepções e narrativas relacionadas aos acontecimentos em volta do planeta.

Esse processo todo criou um processo central de construção das interpretações da realidade no mundo, viabilizando, também, o crescimento das grandes marcas que vendem para o mundo todo que se aproveitaram do alcance e dominaram o inconsciente coletivo.

Hoje, praticamente todo mundo sabe o que é o McDonalds, a Nike, a RedBull, etc. E a experiência de um shopping center está tão igual que seria muito difícil descobrir que cidade você está se você fosse colocado cegamente em um deles em qualquer lugar do mundo.

A Internet entretanto está desintermediando todo esse processo. A eficiência de escala que foi obtida no processo de globalização está perdendo o seu valor pelo poder de distribuir informação e conhecimento de maneira cada vez mais barata e eficiente.

Se a eficiência em baixa escala está se igualando a eficiência em larga escala, então o preço do serviço para a sociedade não é mais o elemento determinante. O valor mais escasso passa para outro ponto.

O que me parece evidente é que estamos entupidos de informação, hoje em dia, pela facilidade da produção, e o nosso caminho natural está sendo filtrar isso para satisfazer os nossos objetivos de vida.

Naturalmente, começamos nos empanturrando com lixo. Digamos, se notícias e informações sobre economia que buscávamos eram escassos dez anos atrás, nada mais natural agora passar 10 horas por dia consumindo tudo o que conseguimos ver na frente.

Só que isso é uma fase. Logo, percebemos que quantidades de horas não nos levam mais para a frente na vida, pois se eu posso consumir isso tudo, qualquer outra pessoa também pode, o que quer dizer que este conhecimento não é assim tão escasso como era no passado.

Estando na era do excesso de informação, o que, então, passa a ser escasso?

No meu entendimento estamos voltando para o período antes da mídia de massa. Como um pêndulo que se move de um lado para outro, agora parece que voltaremos a nos isolarmos em bolhas de significado e propósito.

Já estamos observando os sinais claros desse processo nas discussões políticas da última década: estamos vendo a mídia globalizada apresentar uma falsa dicotomia entre esquerda e direita, e tentando colocar todas as bolhas fora das narrativas globais para o lado da direita.

Também estamos observando a separação, cada vez mais clara, nos significados das palavras, não só na tal dicotomia, mas também nas várias bolhas de comunicação. O que está tornando a comunicação e a troca de ideias praticamente impossível.

Sem uma base comum de semântica, de valores e de virtudes não será possível a convivência racional entre estas bolhas. Tenderemos a cada vez nos polarizar e nos agrupar nas nossas próprias tribos, recebendo muito mais do que informação, pois absorveremos também sentido e significado de vida.

Este lado emocional do relacionamento se tornaram escassos no nosso novo mundo da informação abundante. Sentido e significado agora é o que estamos buscando, e pagando bem para consumir.

Usamos agora Patreon, cursos e listas no Hotmart, gorjetas no superchat do Youtube, assinaturas de canais pagos e close friends para adquirir o acesso às nossas tribos. Pagamos animadamente esses serviços e absorvemos os propósitos e sentidos sendo entregues.

A informação que essa turma está oferecendo é apenas informação disponível já de graça na Internet. O que está indo junto agora é conteúdo com significado, é algo que nos ajuda a nos orientar e nos movimentar para construir o nosso futuro.

Da mesma forma que as pequenas comunidades das praças e igrejas no passado envolviam os populares para contribuir para a construção e o crescimento do próprio grupo, agora estamos localizando estas praças e igrejas nos ambientes virtuais. E se você quiser ser uma fonte de significado e sentido, vai ter que aprender a criar a sua bolha, a sua tribo, comunicando uma narrativa que seja única e que consiga transformar o mundo das pessoas que você toca.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari