Por que diabos temos um grilo falante na cabeça?

26/Nov/2020

Por que diabos temos um grilo falante na cabeça?

Para quê a evolução levou nosso cérebro a criar a consciência, que é a nossa percepção da nossa própria existência? Por que simplesmente não somos como os outros animais que não ficam ruminando o passado ou ansiosos com o futuro?

Curiosamente pelas últimas teorias esta habilidade não veio do puro acaso. Nossa consciência é uma vantagem competitiva que evoluiu em conjunto com a nossa necessidade de comunicar.

Para explicar isso, vamos lembrar de nossos antepassados que viviam nas cavernas. Imagine então um grupo de caçadores encontrando uma presa para poder se alimentar.

Inicialmente devíamos apenas expressar alguns grunhidos para chamar a atenção de nossos pares e conseguir apontar para uma direção que levasse o grupo a alguma ação mais coordenada.

Logo esses grunhidos foram se especializando e ganhando significado específico de acordo com o som produzido. É o início do desenvolvimento da linguagem.

Só que as palavras apenas representavam objetos específicos, algo como aquelas representações de animais que hoje encontramos talhados em rocha.

O próximo passo é a criação de grunhidos representando atos, o que hoje chamamos como verbos no imperativo. É a representação de um ato já abstrato.

Em seguida, provavelmente veio grunhidos para representar adjetivos, como uma presa que seja grande, ou que esteja perto.

Esta comunicação básica já seria evoluída o suficiente para superar os demais animais, só que chegou um momento que um grunhido representando uma questão (tem um leão aí?), basicamente o que hoje acontece com o uso do ponto de interrogação nas frases escritas.

E isso transformou tudo, passamos a ter que justificar nossos atos utilizando representações sonoras para representar o passado e o futuro. Passamos a ter que narrar e argumentar.

Só que isso somente é possível através de um aparato dentro do nosso cérebro que fizesse exatamente isso. É a voz narradora que fica em nossas cabeças questionando tudo, inclusive questionando a nós mesmos. É a tal da consciência.

Provavelmente esta consciência inicial deveria ser sem filtros, narrando direto pela boca para a produção dos sons. Mas vocês sabem muito bem o que acontece com quem não tem filtros, que abre a boca contando tudo o que acontece, certo? Usamos esses filtros para fazer omissões específicas, contar pequenas mentiras sociais, ou mesmo grandes mentiras para a manipulação deliberada das pessoas próximas.

Naturalmente veio a evolução que criou um filtro interno, ele primeiro narra as histórias para nós mesmos, para depois poder expressar em palavras uma versão da história que nos dá mais segurança em termos sociais, e isso só pode ser feito se o próprio mecanismo tiver a percepção do próprio mecanismo de narrar. Daí o surgimento da tal da consciência como conhecemos hoje em dia.

Hoje então literalmente utilizamos a comunicação como instrumento de cognição distribuída. A comunicação que desenvolvemos pelas palavras usando a voz, e depois através da escrita, viabilizou toda a evolução tecnológica que tivemos nos últimos 50 mil anos.

Dizemos que somos seres sociais, mas isso não é só um detalhe. A comunicação entre pessoas nos transformou no que somos hoje, seres que podem discutir sobre o passado, o presente e o futuro, que pode questionar tudo, e que pode construir raciocínios que são capazes de nos levar literalmente para o espaço.

Curiosamente criticamos a evolução da Internet que criou um ambiente viciante de comunicação muito rasa. A dopamina das relações sociais acontecem também nas relações ciborgues provocadas pelas chamadas online e pelas redes sociais, a grande questão é como estamos aprendendo a lidar com esta nova fase como aprendemos a lidar com os problemas gerados pela imprensa, pelo rádio ou pela televisão.

O ponto mais evidente é que a Internet plugou bilhões de pessoas nesta lógica da cognição distribuída... O que será que poderemos fazer com todo este poder?

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari