O seu eu futuro e a auto-narrativa

13/Jan/2021

O seu eu futuro e a auto-narrativa

“Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de se ser estúpido.” - Friedrich Nietzsche, Além do bem e do mal

O que te interessa momento a momento é o que te leva ao seu “você no futuro”, são as “chamadas para a aventura” que acontecem tanto nas narrativas de ficção como na narrativa que você cria para justificar para você e para os outros o uso da sua energia vital.

Só que você precisa aceitar ser um aprendiz, alguém que inocentemente experimenta as coisas até desenvolver alguma proficiência em alguma atividade. É o caminho do erro, da insegurança e da ambição, até atingir o nível do domínio da arte.

Por que as crianças balbuciam sons quando começam a falar? Estão experimentando o instrumento musical formado pela boca, pela língua e pelas cordas vocais. E só depois de muito treino, errando sem parar, e corrigindo progressivamente os sons é que elas conseguem aproximar os barulhos emitidos com os dos adultos.

Fomos ensinados no colégio e no mundo acadêmico que tudo o que conseguimos na vida vem da ação deliberada e racional, como se tudo o que acontece com a gente vem de receitas claras e exatas vindas de uma ciência, enquanto a realidade está muito mais próxima de aprender a posicionar as velas e esperar para ver como o vento vai bater.

Para tudo isso, o importante é imaginar você no futuro, um certo “eu” idealizado que conseguirá enfrentar os “monstros” que vão vir, o que não é muito diferente das brincadeiras de “faz de conta” que naturalmente fazíamos quando criança.

Por que será que criamos esta ideia que crescer envolve não mais brincar? Que precisamos ser sérios? Acabamos destruindo nossa capacidade de sonhar e idealizar futuros, que é a base da construção das nossas narrativas que dão energia para enfrentarmos o dia-a-dia.

Não é à toa que estamos num período na sociedade com uma quantidade enorme de pessoas depressivas, com dificuldade de encontrar sentido nas coisas.

Estamos hoje saturados de comidas entupidas de carboidratos e com dispositivos eletrônicos gerando emissão ininterrupta de dopamina. Nossos sentidos de sobrevivência básica estão sendo trivialmente sanados e criamos um vazio enorme de sentido que acaba sendo usado pela mídia e pelas empresas para vender produtos de status.

Só que imediatamente após a compra deste status você descobre que não te preenche realmente nada, o buraco de sentido é mais embaixo.

A ambição de aprovação pelos outros não pode ser por instrumentos de status, e sim pelas demonstrações de virtudes, coisas que fabricam o potencial de construção da confiança e de empreendimentos em conjunto.

A religião historicamente foi a nossa referência de construção de virtudes. As narrativas muitas vezes desconexas da nossa realidade sempre foram instrumentos de desenvolvimento de sabedoria. Utilizamos os símbolos e metáforas como formas de colocar em palavras idealizações de comportamento que podemos sempre incorporar na imaginação do eu do futuro.

Com a secularização da sociedade e a ênfase na ciência disseminada pelo iluminismo, esse mecanismo estava sendo progressivamente desgastado. A entrada da Internet diretamente aos dedos das crianças levaram esta falta de mitologia e sonhos diretamente à cabeça delas, dizimando de vez nossa habilidade de encontro de sentido, sabedoria e virtudes.

Mas tudo isso não é só notícia ruim… A própria Internet está encontrando sua maneira de transportar mitologia e formas de transformar percepção das pessoas.

Estamos já encontrando uma cauda longa de conteúdos de ficção com metáforas progressivamente mais ligadas à razão de viver das pessoas. PodCasts estão encontrando maneiras de levar o diálogo socrático para a entrega de sabedoria em forma bruta. Até mesmo as religiões estão descobrindo maneiras de abandonar seus posicionamentos excessivamente científicos e focando cada vez mais na ligação real da virtude com o dia-a-dia da vida, entendendo seus textos sagrados como deveriam mesmo ser interpretados: uma narrativa que ensina e transforma.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari