Narrativas para dentro e para fora

20/Ago/2020

Narrativas para dentro e para fora

"Se você pensa que pode ou se pensa que não pode, de qualquer forma você está certo."

Esta é uma frase de Henry Ford que analisa o poder de como a nossa própria mente pode nos limitar ou nos dar energia para enfrentar os desafios na vida.

O curioso disso é observar que o que pensamos não é nada mais do que a narrativa que contamos para nós mesmos. É aquela voz que se comunica com palavras reais mas silenciosas que ficam julgando a nossa realidade e o nosso potencial.

Essa voz está, basicamente, tentando nos convencer de alguma coisa. Ela junta elementos para construir uma narrativa convincente que nos faz acreditar como verdade. E nos convence tanto que ficamos armados até para argumentar com amigos e tentar convencê-los da visão distorcida interna.

De forma curiosa não fazemos a higiene correta de ficar questionando as certezas que esta voz interna fica passando. Ela usa percepções do passado e expectativas de futuro que simplesmente não representam o mundo real, mesmo porque esta voz é apenas uma criação do nosso cérebro que não pode ser criticada pela sua incompetência.

Por outro lado, fazemos racionalmente a criação de narrativas para tentar convencer as pessoas que nos cercam. Contamos histórias, apresentamos exemplos, pesquisamos a ciência, mostramos ideias de pessoas de sucesso e de sabedoria, e nos espelhamos nas melhores referências que encontramos para apresentar uma narrativa que motive as pessoas a acreditar num mundo futuro possível.

É o que fazemos quando vamos nos apresentar numa entrevista de emprego e contamos os nossos sucessos passados em outras empresas, nossos estudos e a nossa energia para empolgar o empregador a nos convidar para fazer parte do projeto da empresa.

É, também, o que buscamos quando nos juntamos com uma esposa ou esposo e os convencemos que a vida pode ser melhor se os projetos individuais se tornassem um projeto compartilhado a dois.

Outro exemplo é que contamos narrativas para apresentar para os interessados no nosso produto ou serviço como a vida deles será bem melhor por permitir que façamos parte do desafio dele no negócio que ele toca através da parte que podemos contribuir.

Essas narrativas que contamos externamente são histórias que precisam ser baseadas na verdade, pois sem isso teremos bastante dificuldade de as sustentar. Se for uma mentira, pode ser até que consigamos fechar um negócio, só que, logo que for descoberto que a narrativa era falsa, a confiança é perdida e o risco de transformar o cliente em um inimigo é alto.

Só que a narrativa que contamos para nós mesmos não é assim. Como só acontece no nosso mundo imaginário na cabeça, não existe como ficar culpando a voz e a transformar numa inimiga. Temos que aprender a entender que esta voz é simplesmente um instrumento bem limitado que usamos para pensar com os nossos próprios botões, que precisa ficar sempre sendo validada com a realidade.

E a maneira de fazer isso é criar narrativas internas diferentes. É criar histórias de esperança e de coragem que nos façam assumir riscos e que permitam que aprendamos a ficar cada vez mais fortes e adaptados para o mundo.

Toda vez que você escutar a voz dentro da sua cabeça dizendo que não consegue ou que não pode já marque isso como uma narrativa de criança medrosa que você está criando. Seu papel, então, passa a ser contar narrativas de tentativas e enfrentamento, com seus erros e acertos, narrativas exatamente do mesmo tipo que contamos para terceiros para os envolver.

Curiosamente, essas narrativas podem muito bem ser as mesmas. Se a narrativa que você conta para fora está baseada na verdade, não existe razão para ela não ser igual a que você conta para você mesmo.

Na realidade, a própria criação da narrativa externa é um tremendo exercício para cuidar das narrativas internas. Você vai ver que, se você consegue convencer alguém no mundo real, aquela voz medrosa dentro de você vai se sentir uma idiota.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari