A Internet está criando a nova sociedade

16/Jul/2020

A Internet está criando a nova sociedade

A história que contamos para nós mesmos é que precisamos progredir na vida, e para isso precisamos estudar e aprender acumulando informações que nos ajudarão a lidar com os problemas e desafios que a vida irá trazer.

Entendemos que o nosso cérebro é uma caixa que está vazia e que pode ser ocupada se fizermos um “download” de livros ou aulas para dentro dele, de forma que estaremos preparados. Este é uma metáfora simples, mas está completamente errada.

Esta visão veio do nosso processo de escolarização, que ensinou que o que determina o nosso futuro são disciplinas e conhecimentos, como se isso fosse o suficiente.

Estranhamente mesmo no colégio era comentado como era importante fazer as perguntas certas em vez de ficar buscando a resposta certa, só que ninguém nos ensinava ou nos treinava para este desafio. Parece que fazer perguntas certas era para ser algo inato, ou de desenvolvimento espontâneo, e o sentimento era de frustração ver os colegas olhando o mundo de uma maneira diferente e engenhosa, permitindo resolver problemas tanto de colégio quando da vida sem esforço aparente.

Todo o erro que impede esta nossa evolução está baseado nesta metáfora limitadora de que precisamos nos abastecer de informação. E isso sempre ficou visível aos nossos olhos por toda a nossa vida, pois observamos vários colegas que buscaram ler, reler, decorar e tirar notas altas e, mesmo assim, apanharam na vida para conquistar sucesso da mesma maneira que muitos colegas que eram mais relapsos.

O que é isso então que não nos é ensinado no colégio e na academia que nos deixa despreparados para a vida?

O que não nos ensinam é que todos nós somos uma obra em construção, e não uma máquina pronta que só precisa encher o “disco de dados”. Temos um cérebro extremamente maleável que precisa ser domado e treinado para, de forma adaptativa, lidar com os desafios que enfrentaremos.

Vamos então pegar um exemplo prático de matemática para exemplificar: o cálculo da soma de uma progressão aritmética, a famosa P.A.

Qual é a soma de todos os números de 1 até 100?

Você poderia pensar que vai dar um trabalho enorme fazer 99 somas na mão, só que existe uma maneira diferente de ver o problema: se você somar os números dos extremos, no caso 1 e 100, você terá a soma 101.

Se você repetir o processo e somar os seguintes das extremidades, no caso 2 e 99, a soma também será 101.

E isso vai se repetir até os números 50 e 51, o que nos dá 50 somas que totalizam 101, e o resultado final será 5.050.

Provavelmente você decorou o uso da fórmula “Sn = (i+f).n/2” e achou que isso resolve o problema, o que você estaria correto, entretanto você estaria apenas aprendendo a fazer o que uma calculadora faz, e não aprendendo a enxergar o mundo de maneiras diferentes.

Conseguir enxergar uma soma complicada de uma maneira que ela pareça simples é um treino para o nosso cérebro, é entender que o mundo não se resolve com fórmulas prontas ou com esforço bruto, e sim com a nossa capacidade de interpretar e reinterpretar o mundo e fazer as perguntas corretas.

Para isso precisamos de estímulos externos e uma vontade enorme de recuperar e manter uma mente de principiante, exatamente o que fazíamos quando crianças antes da educação formal nos ensinar que este aprendizado caótico não gera nota e que precisamos aprender a ser uma calculadora meia-boca ou uma wikipedia desatualizada.

Sendo já adulto, e não mais podendo deixar apenas com o crescimento lúdico, precisamos ser ainda mais deliberado. Precisamos entender que temos que moldar o nosso cérebro para ser uma máquina hiper-adaptativa que dominará qualquer obstáculo que surja na nossa frente.

Para isso, uma maneira legal de imaginar esta transformação é imaginar você no futuro sendo diferente. É basicamente criar uma idealização do seu “eu futuro”, alguém que você hoje teria orgulho de ser na perspectiva de hoje, e então construir exposições práticas a situações que permitam te modular para te transformar na pessoa que você busca ser.

Essas exposições práticas são exposições à sabedoria construída pela sociedade, como livros, filmes, artes, conversas com pessoas mais velhas, e talvez até com nossos inimigos, tudo o que questione os modelos mentais limitados que construímos ao longo da nossa vida. Estes questionamentos farão a construção de insights que quebrarão nossos modelos mentais que nos impedem de enxergar o mundo de outras formas.

Temos preconceitos em nos expormos à sabedoria, pois nossa mente cartesiana busca apenas encaixar a informação que vemos nos modelos mentais já estabelecidos. Esse processo é bastante difícil de fazer, entretanto existem formas de quebrar esses modelos mentais que são praticados à milhares de anos na comunicação escrita e falada, no desenho e no material como os poderes na narrativa, dos símbolos, das metáforas e da comédia.

Hoje classificamos estes poderes como habilidades artísticas, e compartimentalizamos isso como se fossem apenas para o nosso lazer. Estranho não?

Nossa sociedade só é o que é hoje por causa do poder das narrativas dos anciãos que usavam histórias de heroísmo e de virtudes no passado e das narrativas e metáforas das religiões que também nos trouxeram até aqui.

Hoje quem mais executa este poder é a Internet através do YouTube e as redes sociais, entretanto estão hoje tomados pelo processo raso de comunicação mais visceral. Só que isso é uma fase, e o padrão da “arte” já está subindo na Internet. 

Com o poder de comunicação disseminado e barato da Internet, quem souber usar os poderes das narrativas, dos símbolos, das metáforas e da comédia terá na sua mão os instrumentos de ajudar a transformar a sociedade de uma forma que a educação formal jamais conseguiu sonhar.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari