Impacte a interpretação de vida da sociedade

22/Mar/2020

Impacte a interpretação de vida da sociedade

Você capta pelos sentidos, como olhos, nariz, ouvido, dedos e boca, tudo o que deve estar acontecendo a nossa volta, mas como você processa esta quantidade absurda de informação para tomar a decisão de dar um passo para alguma direção?

Explicando de outra forma, vamos dizer que você vai pegar o carro para a primeira lição de direção. O instrutor então fala para pisar levemente no acelerador, olhar para o vidro, mover o câmbio, pisar na embreagem e no freio, tudo isso no tempo certo para não provocar um acidente. Como é possível lidar com esta quantidade gigante de informação e tomar a decisão correta?

A resposta é que nosso cérebro evoluiu para simplificar rapidamente a informação por meio de mecanismos automáticos aprendidos por experiência. Depois de algumas aulas, você logo consegue esquecer que o carro existe e a lataria do carro passa a ser parte de você, como se tudo fosse uma coisa só.

Da mesma forma que quando olhamos uma pessoa nós aprendemos a não mais "enxergar" todas as minúcias do formato do rosto, apenas surge na nossa mente uma percepção da identidade da pessoa que rapidamente pode abrir "gavetas" como nome, onde estudou, quais são os amigos comuns, etc.

Nosso cérebro se especializou em descartar informação com o objetivo de simplificar e abstrair as coisas. Curiosamente todo este mecanismo acontece fora do nosso lado racional, ou seja, não conseguimos descrever como ele acontece, e a informação que chega já é a interpretação da informação bruta obtida pelos sentidos.

Este mecanismo comete falhas? Pode cometer.

Por exemplo, a pessoa que está chegando está agora de barba, de chapéu e de óculos escuros, o que destruiu a habilidade de interpretação rápida. Como ele vem na sua direção, a ansiedade bate e, então, você consegue perceber uma tatuagem no braço. Uma informação nova percebida pelo lado racional induz mais uma filtragem e completa as dicas necessárias para a identificação certa da pessoa.

Tudo na nossa vida racional obedece esta lógica, desde esta mecânica mundana até a percepção do processo político que acontece na empresa que você trabalha ou nos atritos que você tem com a sua família.

O problema é que tudo o que você percebe passa por este filtro de entendimento interno que foi desenvolvido pela experiência do dia a dia, e que você não consegue perceber como acontece porque está antes do nosso entendimento racional.

Isso quer dizer que você pode estar percebendo as coisas diferentemente do que seria o mais ideal para você. É bem possível que aquela pessoa que simplesmente esqueceu de cumprimentar você pode ser interpretada como sendo uma pessoa mal educada ou como uma pessoa que está de mal ou com raiva de você.

Como corrigir então estas interpretações da realidade?

O primeiro ponto é entender que nossas interpretações são reflexos de nossa experiência. Se estamos acostumados a percebermos como pessoas preteridas em uma situação, vamos acabar sempre enxergando esta situação em todas as outras por causa do nosso treino.

É importante então questionar nossas percepções. A interpretação é algo que precisa ser validada com outros elementos para não fabricamos dramas internos que, na prática, não existem.

O segundo ponto é que podemos ampliar a nossa habilidade de percepção também. Estar de mente aberta e obter mais informações sobre o ambiente, para tomar decisões que a maior parte das pessoas não tomariam por estar trabalhando com informação limitada.

Ter paciência para observar e buscar validar as interpretações é instrumento para a construção de uma consciência mais elaborada para a vida.

E o que isso tem a ver com a comunicação das marcas pessoais e das empresas?

É que a maior parte das pessoas está nesta busca do desenvolvimento desta sabedoria, e informar, narrar e entreter sempre foram os instrumentos que utilizamos para ajudar as pessoas a alterarem suas interpretações das suas vidas.

Antes da invenção da escrita, a forma que se propagava cultura e sabedoria era por meio de estórias envolventes sobre coragem, sacrifício, inteligência e de enfrentamento da injustiça. Só que com o aparecimento da escrita, e depois com as mídias eletrônicas, somente quem tinha capital tinha condições de impactar as massas.

E como o retorno deste investimento implicava em induzir não o crescimento intelectual e espiritual das pessoas, mas sim permitir que empresas apresentassem seus produtos e serviços, o resultado é que o conteúdo se tornou raso e com indução ao comportamento passivo de consumo contínuo.

Sobraram basicamente as igrejas e associações como últimos refúgios do uso da tradição oral para a significação de vida das pessoas, mas mesmo isso está sendo engolido pelo poder da Internet e do celular. Não é a toa que estamos numa epidemia de depressão e de vitimização de nossas gerações mais novas.

Como empreender é a forma na qual entregamos valor a sociedade para que ela tenha uma vida melhor, naturalmente os empreendedores estão agora focando rapidamente na entrega de propósito e de sentido para tudo o que estão fazendo. 

Apresentar um produto ou serviço já não é tão relevante, agora o que precisamos apresentar é como um produto ou serviço, num contexto apropriado, impacta positivamente a vida das pessoas tornando suas vidas mais completas.

Não serve apenas comunicar os benefícios de produto, agora precisamos construir um contexto onde as narrativas da comunicação conciliam com as narrativas de vida das pessoas na sociedade, e isso não é muito diferente da tradição oral que tínhamos antes da invenção da escrita.

A comunicação agora tem que ser baseada em valores, em propósito, em inteligência, e até em insights para a vida. É o que hoje buscamos em nossos celulares.

Aprendemos na escola que o importante é responder as perguntas corretamente, mas o que na realidade melhora a vida das pessoas é ajudar as pessoas a fazerem as perguntas corretas. O que a sua comunicação está fazendo para isso?

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari