A escola parou no tempo! O que vai vir agora?

07/Jul/2020

A escola parou no tempo! O que vai vir agora?

Crescemos no colégio com uma visão generalista, entretanto já no segundo grau encontramos a difícil posição de ter que escolher a direção que governará os avanços intelectuais e de experiência para a próxima fase da vida.

Logo uma ansiedade aparece e ficamos frustrados com todas as possibilidades que passamos a dizer “não”. Nosso futuro parece progressivamente menos livre e mais amarrado a “catedrais acadêmicas” na qual passam a governar as possibilidades de geração de valor para a sociedade. A impressão que temos é que os papéis são fixos e desenhados pela sociedade, e que nosso papel passa a ser apenas de qualificação para ocupar a posição que estará lá disponível.

Não sei exatamente de onde vem esta narrativa, talvez seja apenas um legado histórico da visão da escola como fábrica de mão de obra para grandes indústrias no passado, só sei que reflete muito pouco como a realidade é hoje.

Eu me formei em engenharia elétrica e não exerci exatamente o trabalho na qual me formei. Acabei trabalhando em desenvolvimento de software, e pelo menos pude me utilizar de uma boa parte dos conhecimentos de eletrônica que aprendi durante o curso.

A maior parte dos meus colegas de curso não tiveram nem isso, viraram gerentes, vendedores e executivos. Outros ainda seguiram na carreira acadêmica, muitas vezes até trocando de área de conhecimento como administração, direito e humanas.

No final, aos trancos e barrancos acabamos ajustando nossos trajetos com base nas oportunidades e interesses que encontramos pelo caminho, sempre com a perspectiva de que somos um patinho feio, saindo do trilho desenhado pela sociedade para fazer algo que parecia fazer mais sentido para a gente.

O curioso é que ser patinho feio é praticamente a regra geral, então qual o sentido de se sentir mal com isso?

Agora estamos em uma segunda grande transformação: a abundância da informação provocada pela Internet.

Tudo aquilo que passamos anos estudando para acumular como conhecimento acumulado para ser usado em algum dia ficou disponível para ser aprendido a custo muito baixo com a informação mais atual possível com os especialistas mais hábeis em comunicação do mercado. Ficou literalmente anti-econômico acumular previamente conhecimento que nem se sabe se estará relevante, atual, útil ou valioso.

Então agora temos dois grandes dramas: um modelo de educação industrial e um mercado que dá cada vez menos valor para a tecnicidade, valorizando a adaptabilidade e a motivação para buscar as soluções para os problemas da sociedade.

O ensino como conhecemos hoje não tem mais chance de sobreviver, e o futuro está reservado para os jovens que entenderem que precisam tocar na sociedade o mais cedo possível para perceber como utilizar do poder de adaptação e de motivação para aprender na prática como os problemas estão sendo resolvidos.

Só que ao ter contato com a sociedade logo descobrimos a quantidade de problemas que existem e que precisam de solução. Caímos basicamente no mesmo problema que qualquer empreendedor se depara quando planeja construir um negócio do zero: como ajudar a sociedade fazendo alguma coisa que gere mais retorno do que o esforço necessário para executá-lo?

Se observamos que alguém está precisando produzir pão, por exemplo, existem várias maneiras de fazer isso: manualmente, com equipamentos, com metodologia, com materiais e insumos diferentes, etc., e a explosão combinatória de possibilidades acaba nos esgotando porque podemos observar que muitas das alternativas são viáveis economicamente, só talvez menos rentáveis.

Como então escolher a maneira certa?

Num jogo de xadrez temos um problema parecido, acabamos aprendendo alguns macetes por experiência ou por conhecimento de terceiros sobre posicionamento de peças no tabuleiro, movimentos de início de jogo, movimentos de mate com poucas peças, etc.

E então aí vem o pulo do gato, fazemos um movimento por feeling e passamos a lidar com o que a sociedade e o universo responde. O próximo movimento então se dá verificando o que o oponente faz e então se preparar para o próximo movimento.

E isso nada mais é do que ser adaptável.

Descobrir exatamente qual o melhor movimento a cada instante que maximize o nosso sucesso a curto e a longo prazo. Metas de curto prazo como posicionamento de peças e defesa de peças valiosas e metas de longo prazo como derrubar o oponente.

E se voltarmos para o exemplo do pão… O negócio então é tentar, descobrir que precisa de conhecimento e equipamentos. Chamar pessoas que já passaram por experiências parecidas no passado, procurar literatura que aumentem o conhecimento, e então fazer experimentos controlados para melhorar o posicionamento das peças.

Acabar com a ilusão vendida que somos auto-suficientes e que precisamos dominar tudo, e entender que enfrentamos os desafios do mundo sempre com a inteligência coletiva. Não somos uma ilha, somos arquipélagos de iniciativas.

Para isso a habilidade de comunicação e de retórica são chaves. Não conseguimos envolver a inteligência coletiva de um grupo se um grupo de propósito não for formado.

E aí, voltando para o nosso interior, precisamos então encontrar dentro da gente o maior diferencial que podemos colocar para o grupo, seja iniciativa, motivação, estratégia, convencimento, conhecimento e até esforço bruto.

No final, é esse o verdadeiro ensinamento que a escola não ensina mas que precisamos ter para a vida: ser adaptável, inteligente e comunicador.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari