Consigo ser convencido por argumentos?

15/Dez/2020

Consigo ser convencido por argumentos?

O que é o nosso cérebro? Por que a evolução levou o ser humano a ter um órgão deste tamanho e que, mesmo tendo apenas 2% do peso do corpo, consome 20% da energia que consumimos só para fazer o seu trabalho?

O cérebro é o mecanismo adaptativo mais avançado que existe na face da terra. Ele observa e interage com o mundo de maneira que busca uma adaptação ótima com o menor custo bioenergético para o enfrentamento dos desafios da vida.

Nascemos com uma necessidade biológica de sobreviver e rapidamente desenvolvemos a habilidade de chantagem emocional com os nossos semelhantes para conseguir comida e abrigo.

Logo que os nossos sentidos de tato, de visão e audição melhoram, passamos a aprender através da imitação do comportamento dos nossos semelhantes a evoluir nossos comportamentos já numa estratégia de inteligência coletiva.

Evoluindo então a fala, e depois a escrita, passamos a utilizar os instrumentos de narrativa e de argumentação para conseguir melhorar ainda mais a nossa adaptação para a sobrevivência através do aprendizado de conhecimento abstrato e de convencimento argumentativo para conquistas de maximizar nossa sobrevivência e o potencial do crescimento da nossa herança genética no mundo.

Logicamente aprendemos também a desenvolver ceticismo, bloqueios de escuta e modelos mentais simplificados que permitem nos defender do potencial manipulativo das outras pessoas, afinal estamos todos na mesma disputa pela sobrevivência nos mesmos espaços físicos e sociais.

Manter um equilíbrio saudável entre ser cabeça-dura e maria-vai-com-as-outras é o nosso desafio social. Como conseguimos então lidar com isso?

A maneira mais simples de definir os limites é replicar o comportamento de espelhamento que desenvolvemos no começo de nossa vida, o que quer dizer que podemos simplesmente cair no comportamento de manada.

O comportamento de manada é uma solução simples e de baixo custo energético, mas também é um comportamento muito perigoso porque grupos com habilidades cognitivas melhores podem antecipar o movimento e se aproveitar disso. É o que fazíamos como tribos nômades na idade da pedra para caçar animais através do susto deliberado para conduzir as presas para armadilhas.

Como não é bioenergeticamente possível modelar todas as situações de nossa vida, da mesma forma que não podemos modelar todos os movimentos seguintes em um jogo de xadrez, temos que adotar estratégias mais simples para que não sejamos enganados. A solução real para maximizar nossa capacidade de sobrevivência é usar o nosso cérebro no seu maior potencial e sempre questionar as premissas e avaliar cada coisa que acontece conforme nossas premissas e valores abstratos.

E até para isso precisamos nos ancorar na cognição coletiva. E a melhor forma disso é usar a comunicação como forma de encaixar as situações reais em interpretações abstratas que possam se encaixar nas virtudes que buscamos para a nossa vida.

Baixar a guarda, e gastar esforço significativo para entender a posição do outro, passa então a ser chave para, primeiro respeitar a pessoa e segundo abrir a possibilidade de ser convencido que nossa interpretação de mundo pode estar incompleta. Assim podendo aceitar uma outra perspectiva nos torna mais hábeis de lidar com o mundo.

Fazer uma escuta ativa, buscando narrar com as próprias palavras a interpretação do outro para sinalizar a compreensão e o reconhecimento da lógica do outro, é essencial para que possamos lidar com o conflito de modelos mentais em nosso cérebro. Estas visões simultâneas desenvolverá a oportunidade de uma reinterpretação ainda mais completa para ambas as partes do mundo, tornando todos ainda mais aptos para lidar com os problemas.

Nosso cérebro foi desenvolvido exatamente para isso, para ser um sistema altamente adaptativo que permite ser moldado para o enfrentamento dos desafios que a vida nos apresenta.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari