A revolução de sentido no on-line

31/Mar/2021

A revolução de sentido no on-line

Uma boa parte recente da evolução do nosso cérebro aconteceu para que pudéssemos construir a autoconsciência que viabilizou a nossa comunicação. E, da mesma forma que as redes de computadores permitem que eles se falem, esta comunicação se tornou a base do processo de cognição coletiva que nos transformou no animal mais bem adaptado para enfrentar os outros animais e os desafios da natureza.

Entretanto nascemos sem esta consciência construída, e nossos instintos básicos de comunicação são apenas reflexos inconscientes. Um exemplo disso é o sorriso involuntário que o bebê faz quando reconhece um semblante humano, e esse comportamento praticamente inicia nossa relação social com os nossos pais. É o início de todo o processo de contínua adaptação para que possamos nos encaixar no tecido social na qual estamos inseridos.

Em torno de 3 a 4 anos damos o passo final de construir uma identidade própria que será a nossa máscara inicial, ela será o nosso instrumento de comunicação que buscará ser agradável e interessante para que as outras pessoas queiram estar perto da gente. Sem o desenvolvimento dessa habilidade, o desafio de socialização e de crescimento pessoal se torna praticamente impossível.

Então, desde a tenra idade o nosso desafio de sobrevivência é aprender a ser ativo mantendo um equilíbrio de ações tanto totalmente egoístas como também generosas que geram valor material e mental para os nossos pares.

Quem não quer participar desta troca se torna literalmente um ermitão, um cara que se distancia tanto das pessoas que transforma os acontecimentos de contato com alguma estrutura social uma coisa a ser evitada e somente de tempos em tempos aparece para obter itens muito complicados para produção independente como roupas, livros e alguns alimentos.

Nosso comportamento natural social é o comportamento tribal. Da mesma forma que lobos vivem em matilhas de até certo tamanho, nossa unidade de organização social historicamente são tribos de até cerca de 100 a 200 pessoas. Estruturas maiores acabavam se dividindo porque perdemos a capacidade empática de lidar com grupos maiores (Número de Dunbar).

Ter saído do contexto das tribos para viver em grupos sociais maiores como cidades foi um desafio relativamente recente na nossa história. Estamos ainda muito mal adaptados para viver nesse caos de relacionamentos e de comunicação com bilhões de pessoas, entretanto nossa capacidade cognitiva é tão poderosa que implementamos convenções, hierarquias e meios de troca que tornaram essa forma de sobrevivência possível. Usamos nosso evoluído lado racional para organizar essas ferramentas como instrumento civilizatório e construímos todo um aparato educativo para usar a comunicação e educar as novas gerações para esse desafio de vida.

O custo desta adaptação é que a partir de uma certa idade começamos a perceber que o mundo é muitas ordens de grandeza maiores que a comunidade familiar que nos cerca. Que precisamos lidar com uma pulverização de relacionamentos e uma entrega de valor constante e aprender a utilizar o dinheiro como a representação abstrata da materialização deste valor com as pessoas que temos contato que estão fora da nossa rede empática.

Além disso, este relacionamento pouco empático e extremamente distribuído provoca um distanciamento enorme entre o que fazemos e o retorno que recebemos. O sentido que existia no sorrir quando criança e o afeto devolvido pelos pais se torna tão abstrato nos relacionamentos comerciais adultos que percebemos como totalmente artificiais e desumanos.

Em vez de entender o trabalho e a remuneração como uma abstração de um relacionamento social, passamos a entender como uma escravização controlada do nosso tempo para alguém poderoso. É o modelo mental do Tempos Modernos do Charles Chaplin, algo totalmente distante do objetivo de viabilizar a nossa vida em sociedade através da abundância de riqueza.

Isso aconteceu em grande parte pela mecanização dos relacionamentos de forma racional provocada pela revolução industrial, pelo cientificismo e pela construção do dualismo mente/corpo apregoada muito por Descartes: a ideia é que passaríamos a dominar com a ciência todo o mundo, e isso incluindo a natureza, os animais, e até o nosso corpo. O ideal é a mente, e precisamos escravizar o nosso corpo por nossos interesses racionais.

Este modelo se esgotou, o pós-modernismo e o niilismo já mostraram que este ideal totalmente mental é literalmente a morte: a desintegração do mundo material é simplesmente lógica sem substrato.

Estamos em plena revolução de pensamento. A própria ciência na psicologia, na inteligência artificial, na fisiologia e na filosofia estão reencontrando nossas raízes humanas. Estamos redescobrindo a nossa capacidade de sonhar, ambicionar, e transformar as pessoas porque grande parte do que poderíamos conquistar de informação e também materialmente para a nossa sobrevivência já está disponível de forma abundante.

Essa mudança social vai exigir uma nova forma de preparar as nossas crianças. A escassez atual passou a ser de sentido, de valor de vida e de significado. É um redescobrimento da metafísica.

Agora, quando vamos na academia não queremos apenas saber os movimentos corretos de abdominais, queremos na realidade nos envolvermos num sentido maior no qual aquela atividade permite receber propósito do treinador e como isso pode permear na nossa qualidade de vida, meio que fazendo as narrativas e valores do treinador se transformar em valor real para o resto do dia através do treino do nosso corpo.

Não queremos mais ler um livro, queremos que esse livro nos transporte para um outro modo de viver. Para isso vamos assistir vídeos relacionados, acompanhar as redes sociais do autor e conversar com os nossos amigos para, numa dinâmica de troca, enviar e receber insights e permear estes ensinamentos para o nosso dia-a-dia.

Nosso trabalho não pode mais ser simplesmente fazer o que o chefe manda. Estamos desesperados em entender como nossa atividade gera valor para os clientes da empresa. O significado do que fazemos precisa gerar um efeito equivalente para a pessoa que está usando o produto ou serviço.

Nosso atual modelo educacional está sendo destruído. A Internet está entregando muito mais sentido do que a maioria dos professores fazem nas salas de aula por obrigação do velho modelo industrial. Ou mudamos a educação ou a educação vai ser self-service em questão de anos.

A mídia entregava notícias massificadas, meio que determinando o que as pessoas precisavam pensar para se sentirem parte de algo. Neste caso a transformação está literalmente na fase final provocada pelo poder de comunicação distribuído, bidirecional e imediato. A mídia não tinha a menor chance.

Novos modelos de remuneração estão em construção. Clubes e comunidades de envolvimento social estão em crescimento. As narrativas e propósitos se tornam totens para a aproximação de pessoas sedentas de sentido.

O on-line se tornou nossa nova forma escalável de entregar sentido e valor. O relacionamento empático é muito mais raso, entretanto está ficando claro que conseguimos manter certa empatia com um público bem grande facilitado pelas ferramentas de chat e do cultivo de comunidades saudáveis.

O que vai ser esse novo futuro ainda não está claro, mas as forças estão bem visíveis. A ligação entre o que você faz e o que você pensa será o seu mantra. Está sendo uma revolução que não vai passar na sua tevê.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari