A relação entre medo e coragem

25/Fev/2021

A relação entre medo e coragem

Então hoje é o dia do dentista, e você já sabe que tem um dente que vai ter que ser obturado.

A luta mental é intensa. Já dá um frio na espinha de antecipação e do sofrimento de passar meia hora na intervenção, meio que tentando descobrir uma justificativa para furar o compromisso marcado.

No dia seguinte aparece a oportunidade de apresentar o seu novo projeto para um potencial cliente. Mesma agonia: antecipação, dúvidas sobre o seu próprio valor, meio que torcendo para ver se o acaso fabrica uma oportunidade para adiar o evento e dar mais um tempo para preparar o material.

Passa um mês e seu amigo apresenta uma ideia de um negócio para vocês fazerem juntos. Vai dar um trabalho enorme e vão ter que comer o pão que o diabo amassou por mais de um ano, e além disso não existe nenhuma garantia que o negócio vai dar certo. Só que a vida está difícil mas pelo menos está estável, então melhor nem começar, certo?

Esse modelo mental reativo é um verdadeiro problema. Por que será que fomos ensinados a suportar os desconfortos e buscar o conforto? Onde foi parar o gosto para a aventura e o prazer de assumir riscos?

Será que esquecemos que viemos à Terra e que nosso tempo de vida é limitado? Se eu fosse um verdadeiro teórico da conspiração eu poderia até afirmar que deliberadamente nos ensinaram nas escolas e nos nossos trabalhos a apenas servir e aturar nossos desconfortos.

Mas e se a vida não for isso? E se começássemos a desenvolver o gosto pelo risco calculado e reconhecer o bem que faz experimentar coisas diferentes?

Quem sabe se mandar de mochilão num passeio na Europa? Ou tomar banho gelado no inverno? Ou começar uma academia e curtir cada segundo?

Como é que se faz isso?

A primeira coisa a fazer é desenvolver a convicção que nosso corpo foi feito para, e ambiciona, pequenos estresses.

O medo em nossa cabeça, a dor que sentimos por esforço muscular, o frio que passamos embaixo da água gelada, e até a agonia provocada pela ação da broca destruindo parte do nosso dente numa obturação são tudo comportamentos de defesa do corpo. Ele está apenas sinalizando uma situação de estresse.

Se o nosso modelo mental for de busca da estabilidade, naturalmente todos estes sinais serão amplificados e nos conduzirão para uma situação animal de ataque ou fuga. Praticamente perdemos a capacidade de ação racional.

Entretanto se deliberadamente assumimos o desafio, praticamente ambicionando sentir o desconforto sabendo da relação custo-benefício positiva da atividade, tudo fica mais fácil. O próprio corpo atenua a sinalização do desconforto, a ponto de muitas vezes nem perceber de forma consciente o que está acontecendo.

É o que acontece quando você começa a frequentar uma academia, por exemplo. Talvez o primeiro mês seja um sofrimento sem fim, mas na hora que você se acostuma e começa a perceber que a dor e o desconforto são apenas uma sinalização, e que o corpo começa a se utilizar do estresse para se preparar ainda mais para futuros estresses, todo esse sofrimento é bloqueado como seguro pelo nosso cérebro.

É o caso das pessoas que literalmente se viciam em academia: a cabeça passa a só perceber o prazer das endorfinas e do desenvolvimento muscular.

Só que podemos ser deliberados em assumir este tipo de risco. Se conseguimos nos convencer que o desafio é interessante, e que os desconfortos são temporários e apenas sinalizações irrelevantes, tudo o que fazemos pode se tornar gratificante.

E isso nada mais é do que a definição de coragem. Coragem é ser firme e convicto que os desafios são gerenciáveis e que a idealização de um futuro possível é algo alcançável.

Um exercício trivial para ser feito é o costume de tomar banhos gelados.

Parece uma coisa boba, mas acabamos nos acostumando a entrar na água apenas quando a temperatura está morna o suficiente para não passarmos frio. Só que você já pensou o que aconteceria se você entrasse direto com ela fria?

Nosso corpo está preparado para isso. Temos na proximidade da pele musculatura e irrigação vascular desenhados para preservar a temperatura interna do corpo. Só não estamos acostumados a entregar estresse para esse mecanismo por causa do uso constante de roupas, ar condicionado e aquecedores.

Se não treinamos nosso corpo para lidar com variação de temperatura, rapidamente qualquer flutuação acaba sendo extremamente desconfortável para a gente. O resultado é que nos tornamos mal adaptados para o nosso ambiente.

Mas agora que você sabe de tudo isso, que é trivial ignorar a sinalização de desconforto da água fria e que rapidamente percebemos um aumento da atividade do corpo pelo estresse provocado que nos deixa alertas e presentes para o prazer de sentir a queda da água da ducha no corpo, você então teria a coragem de começar a fazer isso?

Quais os "sofrimentos" que você agora vai aprender a acolher de forma positiva para a transformação de sua vida?

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari