A ciência nos tornou mal adaptados para a vida

09/Mar/2021

A ciência nos tornou mal adaptados para a vida

A ideia de Descartes de que a mente e o corpo são entidades separadas, sendo a mente o espírito que controla o corpo, fabricou um dualismo e uma idealização sobre tudo o que é racional.

Nosso imaginário hoje é que o corpo nada mais é do que um instrumento da mente, e criando uma falsa premissa de que conseguimos evoluir com a pura instrução para utilizar nosso lado racional e controlar a nós mesmos e o mundo.

O professor John Vervaeke é um cientista cognitivo que está trazendo de volta a visão aristotélica de racionalidade totalmente ligada à experiência e ao desenvolvimento do corpo. Sua série chamada "Acordando da Crise de Significado" no YouTube está criando toda uma consciência de como a ciência da cognição está conectando o conhecimento filosófico antigo, a metafísica religiosa ou não, a fisiologia humana, e até a relação com o desenvolvimento da inteligência artificial.

E por que é importante voltar a ligar a mente ao corpo? O ponto é que a inteligência e a capacidade de lidar com o mundo é dependente da nossa contínua adaptação a ele e às pessoas em volta da gente. Não é um processo que caminha de abstração para o ambiente, na realidade é um processo contínuo de descoberta e testes de alternativas numa realidade onde um número infinito de opções estão ao nosso alcance.

Tanto que quando criança nunca ficamos sem opções de ocupar o nosso tempo com descobertas, apenas quando crescemos que passamos a ficar avaliando somente alternativas "autorizadas" por nossa visão racional de futuro.

E qual a razão para ele argumentar que precisamos "acordar" da "crise de significado"? É que, com essa separação entre a mente e o corpo, a mente se torna etérea e independente, como se o mundo físico não acrescentasse a sua existência. A impressão é que idealizamos nossa vida para sermos um computador de conhecimentos exatos, ao mesmo tempo que ambicionamos os computadores a serem capazes de tomar decisões humanas em nosso nome.

Desumanizamos o homem enquanto tentamos humanizar os computadores através da inteligência artificial.

Para corrigir essa interpretação de mundo, o professor Vervaeke propõe que devemos separar a nossa racionalidade e o nosso conhecimento em 4 diferentes disciplinas (os 4Ps): conhecimento propositivo, conhecimento procedural, conhecimento de perspectiva e conhecimento participativo.

O conhecimento propositivo é basicamente a pura inferência, algo como definir uma proposição e saber que é verdade ou falso com base na lógica e na ciência tradicional. É o conhecimento, por exemplo, de que a água será líquida caso esteja na pressão atmosférica terrestre e na faixa de temperatura entre 0 e 100 graus centígrados.

O conhecimento procedural é uma sequência de movimentos e manobras que permitem que algum resultado final seja obtido. Cozinhar, derrubar um oponente numa luta, construir uma mesa ou fazer uma cirurgia bem sucedida são exemplos de procedimentos que implicam em instruções sequenciais e habilidades práticas de execução.

O conhecimento de perspectiva é a nossa noção de presença, algo como se sentir dominando ou administrando os perigos e as oportunidades do local que você se encontra, e não está simplesmente sobrecarregado ou incapaz de compreender o ambiente.

Por último, ele lista o conhecimento participativo, que é o conhecimento e a habilidade de ter um relacionamento quase ideal de agente com o ambiente. É o conhecimento que desenvolvemos de fluxo quando conseguimos lidar com a maior parte do incerto que surge a cada momento, nos adaptando de forma ótima para não só lidar, mas também tirar proveito do inesperado. É o exemplo clássico de conseguir dominar um videogame ou estar envolto em um projeto e esquecer o tempo passar.

Com esse modelo desenhado fica fácil perceber como o conhecimento propositivo é o único "P" que está relacionado ao modelo de que a racionalidade está separada do corpo. Também conseguimos enxergar como os outros 3 "Ps" são os que encontramos nos animais como força propulsora para justificar suas vidas e a sua existência, e o que racionalmente tentamos ignorar criando a nossa “crise de sentido”.

Os filósofos antigos como Aristóteles já falavam disso no passado, como também os pajés, profetas e anciãos: pare um pouco de racionalizar tudo e deixe seu corpo experimentar e dominar o mundo. O proposicional não é capaz de criar sentido.

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari