2.020 e os seus profetas de propósito

01/Jan/2020

2.020 e os seus profetas de propósito

Escrevi um artigo recentemente sobre a seleção natural de propósitos que estamos observando acontecendo na Internet em cima das diversas ferramentas de comunicação de chat e de redes sociais.

Argumentei que os propósitos estão brigando pelos corações e mentes das pessoas através de lógica, argumentos técnicos e também de persuasão.

O que não falei até agora é que estamos também transmutando a comunicação. A visão idealizada do jornalismo e da propaganda com estratégias de neuromarketing estão com os dias contados por causa do seu esgotamento e da imposição que a competição plena de propósitos no ambiente da Internet está proporcionando.

Nosso grande objetivo como ser humano é encontrar o nosso propósito, e espelhar em propósitos de terceiros é apenas uma maçã do galho mais baixo. O grande salto é quando a nossa comunicação ajuda a moldar os propósitos individuais com a sua particularidade própria, fazendo de certa forma que os brands acabem virando quase pseudo-religião para as pessoas crescerem no sentido de propósito.

Não temos tempo e nem condições de transformar as pessoas na sociedade em filósofos, e provavelmente as religiões estabelecidas não terão tempo para se adaptarem a tempo neste processo de disrupção: os brands serão os principais criadores de propósitos nas pessoas.

Da mesma forma que um filme do StarWars entretém a gente e fabrica modelos de comportamentos virtuosos que possamos espelhar, a mesma coisa está acontecendo com a comunicação dos brands pessoais e corporativos.

O uso da narrativa como instrumento de ensinamento e de passagem de cultura existe desde antes da invenção da escrita, o que acabou acontecendo é que a indústria de comunicação de massa diluiu os valores e propósitos com o intuito da captura de atenção mais rasa. Só que isso não está mais vingando na ocupação dos nichos de cauda longa, o que estamos vendo é a busca desesperada de sentido e valores nestes nichos e a idealização destes atores de nichos como os novos "profetas", os novos "ídolos", os novos representantes de virtudes e de sentido para a vida.

A comunicação não está mais sendo a mesma. Argumentos lógicos, cartesianos, idealizados, "jornalismo isento", argumento de autoridade outras falácias sofrerão bastante para engajar esta nova sociedade que está vindo. O cinismo das pessoas está tão forte que os novos "profetas" de comunicação estão tendo que ser muito "puros", ou seja, verdadeira autenticidade e "pele em jogo".

Além disso, estes "profetas dos nichos" terão cada vez mais que aprender a construir excepcionais narrativas, terão que criar suas "escrituras" e criar seus jargões para criar uma cultura própria de construção da gnose do público. Terão que usar o "verbo" para construir na cabeça das pessoas uma transformação das "caixas limitadas de compreensão do mundo" de cada membro da audiência para uma "caixa maior" que explique o mundo de uma maneira melhor.

Será de enfim conseguiremos reduzir o impacto que Descartes exerceu na nossa sociedade de simplificar a nossa existência como robôs lógicos programáveis e passemos a entender nosso papel de atores de transformação da sociedade e do mundo?

  • Fábio Ferrari Fábio Ferrari